sábado, 15 de maio de 2010

Crônica- Artigo Científico

ESTE TRABALHO FOI PUBLICADO NA REVISTA AEI, ITAPETININGA.


CRÔNICA

Vera Lúcia Grando

Drª em Lingüística e Semiótica Geral pela USP,

Professora na AEI, na FAMEC e na Rede Estadual de Ensino.

Palavras- chave: Crônica, origem, Millôr.

Resumo: O artigo oferece algumas definições de crônica por cronistas renomados e uma análise lingüística do texto A Vaca, de Millôr Fernandes.

Key- Word: chronicle, origin, Millor.

Abstract: The article offers some definitions of chronicle by renowned chroniclers and a linguistics analysis of the text "The Cow", written by Millor Fernandes.

No movimento da linguagem, no entrelaçamento de idéias, nas múltiplas formas de texto, há uma estrutura que causa risos, espanto, reflexão, perplexidade, conforme seu contexto: a crônica.

A origem da palavra crônica é grega, vem de crono ( tempo). Foi introduzida na língua latina chronica. No século XIV, utilizava-se o termo cronicão para designar resumos, anais em que fossem relatadas as histórias de reis, países, nobres. Presume-se que a palavra crônica seja derivada de cronicão. O Dicionário Etimológico de Antônio Geraldo da Cunha ( 1999) registra essa palavra como uma entrada na língua portuguesa proveniente do francês chronaxie.

A carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel foi a primeira crônica brasileira; “ é o marco inicial de uma busca que, inevitavelmente, começaria na linguagem dos ‘descobridores’ que chegavam à Terra de Vera Cruz, até que um natural dos trópicos fosse capaz de pensar a realidade brasileira pelo ângulo brasileiro, recriando-a através de uma linguagem livre dos padrões lusitanos”.( Sá, A Crônica, 2001,p.5) Esse tipo de crônica é histórica.

Caminha também estabeleceu o princípio básico da crônica: “registrar o circunstancial” (idem, p.6). Esse registro iniciou oficialmente a Literatura Brasileira. Portanto, “a Literatura Brasileira nasceu da crônica”. (idem, p.7)

Atualmente, a palavra crônica é um texto em que há acontecimentos narrados em um tempo contemporâneo ao do narrador, o qual, nele, desenvolve reflexões genéricas sobre os fatos, acontecimentos mencionados . A crônica pode ser confundida com conto. A crônica é uma narrativa curta que recebe um tratamento literário, mesmo que não seja considerado ficcional. O cronista pode dar à crônica várias facetas,tais como: Descritiva- espécie de crônica que explora a caracterização de seres animados e inanimados em um espaço como um retrato, com detalhes pormenorizados de maneira subjetiva ou objetiva ; Narrativa- envolve muitas ações, poucas personagens e uma conclusão inusitada; Narrativo- Descritiva- em meio a narração aparecem trechos descritivos que parecem congelar as imagens para que o leitor possa visualizá-las; Lírica-é uma espécie de tradução de sentimentos, de emoções, expressão do estado emotivo do cronista ; Reflexiva/ Filosófica- o autor procura inferir sobre a realidade que o cerca, apresentar uma reflexão a partir de um fato ou evento; Metalingüística- o autor volta-se para a escrita, reflete sobre as palavras, sobre as letras; Comentário (esportivo, policial, econômico...) – a visão jornalística se mescla com os comentários do autor ou trata de aspectos particulares das notícias ou dos fatos; Humorística- dá ao leitor uma visão irônica ou cômica dos fatos .

Não é simples estabelecer as diferenças entre o conto e a crônica, uma vez que desta também participam personagens, há um pequeno enredo, o tempo e o espaço , quando trata de eventos que caracterizam uma parte da sociedade. Observe-se o que Célia Passoni escreve a respeito de crônica.

“Costuma-se definir a crônica como um conto sem enredo. Nascida no século XVIII, é um gênero literário de assunto aberto e livre, geralmente apoiado em pequenos fatos do cotidiano e prestando-se a reflexões sobre arte, política, crimes, processos, divagações acerca de incidentes diversos, enfim, tudo o que um observador atento pode extrair do dia-a-dia de pessoas comuns.

O tempo está preso ao presente, mas, quando solicitada, a memória socorre o narrador, que busca associações com acontecimentos de diferentes épocas e, muitas vezes, passado e presente estão juntos para que seja feito um prognóstico do futuro, do que se pode esperar dos homens e da vida.

Há dois veios básicos para que os assuntos divaguem em uma crônica: escreve-se ou em tom sentimental ou em tom humorístico, ambos, porém, sem a agressividade que pode ser importante em outros gêneros narrativos.” ( PASSONI, C.A .N. FUVEST 99, Literatura, p. 147)

Jorge de Sá (2001) argumenta que não se deve confundir narrativa curta com conto. Este possui uma densidade específica, foca a condição humana por meio de exemplos, sem se referir à valoração moral, uma vez que uma mazela mencionada nele pode exemplificar uma das nossas faces. A crônica, por sua vez, conserva a marca circunstancial. É feita por um narrador-repórter que relata um fato a um público determinado, a uma classe que tem preferência pelo jornal em que ela é publicada. Sua riqueza estrutural nasce da economia de laudas, linhas estabelecidas pela indústria jornalística. Geralmente, o cronista reúne as suas crônicas em uma coletânea.

“Enquanto o contista mergulha de ponta-cabeça na construção do personagem, do tempo, do espaço e da atmosfera que darão força ao fato exemplar”, o cronista age de maneira mais solta, dando a impressão de que pretende apenas ficar na superfície de seus próprios comentários, sem ter sequer a preocupação de colocar-se na pele de um narrador, que é, principalmente, personagem ficcional ( como acontece nos contos, novelas e romances). Assim, quem narra uma crônica é o seu autor mesmo, e tudo o que ele diz parace ter acontecido de fato, como se nós, leitores, estivéssemos diante de uma reportagem”. (Sá, 2001, p.9)

Nem sempre o tempo ajuda o escritor, pois deve registrar o fato de um dia para o outro ou de uma semana à outra, com um número de linhas determinadas, deixando a sua linguagem mais próxima da oralidade que da norma culta da escrita, entretanto, há aqueles que fazem um dialogismo entre literário e coloquial, em que a fala coloquial da rua é transformada, elaborada entre o cronista e o leitor de uma maneira simplória, mas que ganha uma dimensão exata.

Jorge de Sá ( 2001) menciona também a importância de Paulo Barreto (1881-1921-pseudônimo João do Rio) no início do séc. XX, porque, ao perceber que a modernização diária da cidade exigia uma mudança de comportamento daqueles que escreviam a sua história diária em folhetins, passou a não esperar por uma reportagem e começou a freqüentar lugares refinados e a fina flor da malandragem. Construiu uma nova sintaxe, mudando a linguagem e a própria estrutura folhetinesca.

Outra visão sobre a crônica pode ser dada por Rubem Braga, na qual o cronista, “o escrivão do cotidiano compõe um claro caminho, através do qual o leitor reencontra o prazer da leitura e – mesmo que não o perceba – aprende a ler na história ‘inventada’ a sua própria história”. (apud Sá, p.12). Sá acrescenta que ao redigir, o cronista deverá criar um papel em que expresse um lirismo reflexivo ( um repensar constante pelas vias de emoção aliada à razão) e que Rubem Braga procura demonstrar esse lirismo reflexivo.

A respeito de Fernando Sabino, cronista, Sá (2001) comenta que Sabino abandona o diálogo direto com o leitor, desviando o foco narrativo da primeira pessoa para uma falsa terceira pessoa. Embora se saiba que quem fala na crônica é sempre o próprio cronista, o narrador reassume a sua máscara ficcional. Já, Lourenço Diaféria ( Sá, p. 38) confere mais importância ao acontecimento em si, porque é a partir dele que depreenderemos o lado risível de cenas que se repetem no dia-a-dia, embora vividas por atores diferentes nas crônicas.

O cronista também pode ser poeta, pode ver poesia nos fatos corriqueiros, pode perceber a poesia em um objeto qualquer e torná-lo rico, do qual emanam sensações por meio de uma linguagem singela, poética e comum. Para Sá (2001, p. 48 e 50),“quando narramos apenas o que todos podem ver, ou quando simplesmente fazemos referência a seres e objetos cuja existência é tão palpável que qualquer pessoa pode comprová-la, torna-se impossível alcançar o plano da poesia. O cronista-poeta sabe disso, motivo pelo qual ele usa palavras para construir o seu mundo, mas o que ele passa ao leitor não está nas palavras em si, está no que elas significam e no que elas possuem de faunos e sereias, que só existem na confluência do real com o irreal. Porque o sentido da poesia- e, por extensão, da crônica, que tem um suporte poético – está na ultrapassagem do que é, para alcançar aquilo que pode ou poderia ser.

Com um olhar ao longo, de sentimentos desprovido de conceitos pré- estabelecidos sobre todas as coisas existentes, o cronista procura no dia-a-dia , em tudo que é visível, mas nem sempre percebido pelo homem, um tópico para desenvolver a sua idéia. Faz o leitor perceber o simples e o suntuoso que há no mundo, uma vez que os valores sociais se divergem, o que é mais importante para um, não é notado pelo outro e que “...o jornal nos dá notícias da vida e da morte; a crônica nos faz compreender a coexistência desses dois elementos que se opõem, mas não se excluem. Por isso Paulo Mendes Campos coloca a poesia como suporte de suas crônicas, o que se percebe nas referências a outros poetas e nas imagens com que ele nos lembra que ainda vale a pena viver.” ( Sá, p.56)

A crônica é suporte de momentos compartilhados muitas vezes com o leitor, mas é apresentada de tal forma que este sente prazer ao lê-la, pois seus pensamentos abrem novos horizontes, novos caminhos para um fato anteriormente definido, rotulado. De certo modo ensina a ver, a perceber novas resoluções, atitudes, concepções de valores, diante de um fato tão comum na sociedade “... a crônica também ensina que o homem se encontra no que está fora do homem.” ( Sá, p. 72)

Após os apontamentos acerca da crônica, sugere-se ainda que um professor recorra da crônica como material a ser utilizado em classe, em todas a disciplinas, haja vista a sua abrangência nos vários segmentos sociais, pois o universo dessa pode ajudar o aluno a refletir sobre o mundo ou criar um novo ponto de vista sobre as coisas que o cercam. E assim, “a crônica – apesar de toda a sua aparente simplicidade – só pode ser valorizada quando a lemos criticamente, descobrindo a sua significação”. ( idem, p. 79) A sua leitura deve estar ligada à descoberta de vários registros do discurso, ao que leva o leitor a interpretar cada passagem até atingir uma interpretação global. Geralmente, essa leitura ocorrerá quando a crônica passar do jornal para o livro, pois o leitor do livro terá mais tempo para apreciá-la que um leitor de jornal, o qual tem mais notícia para ler.

Para elucidar um pouco mais sobre a aplicação em sala de aula, uma crônica humorística do jornalista, humorista, cronista, comentarista, chargista, pintor, escritor, poeta, tradutor, publicitário.... Millôr Fernandes, será o corpo para uma análise abaixo, a qual poderá ser complementada pelos futuros leitores. O texto, A Vaca, faz parte de Conpozissõis Imfãtis e pode ser visto no site do autor com 400 mil itens criados pelo autor, classificados,sistematizados e digitalizados por uma equipe de produção e desenvolvimento, supervisionado pelo próprio Millôr Fernandes..

A Vaca


A vaca é um bicho de quatro patas que dá carne de vaca. Tem um rabo pra espantar as moscas e uma cara muito séria de quem está fazendo sempre essa coisa importante que é o leite.

O marido da vaca é intitulado boi. A vaca tem dois estômagos e por isso fica sempre com a comida indo e vindo na boca que, quando a gente faz, a mamãe diz que porcaria! Já vi ordenhar vaca, que é quando ela faz aquela cara fingindo que não está gostando nada.

Vaca dizem que já custa muito cara viva, agora no açougue custa muito mais e em bife então nem se fala. A vaca a professora ensina que ela dá leite mas nas horas de tirar é que a gente vê que ela dá mas custa. Vaca só se alimenta de grama e daí eu não sei porque o leite não é verde.

Se a gente fica perto ela fica olhando com olhar de que a gente fez alguma coisa com ela e ela está muito magoada. Eu acho que todas as vacas vieram dos Estados Unidos porque ainda não perderam o jeitão de quem masca chiclete.

Análise do texto:

O texto A Vaca, de Millôr Fernandes, apresenta palavras mais concretas que abstratas, as quais fornecem elementos o suficiente para formar um cenário, tais como: vaca, quatro patas, carne de vaca, rabo pra espantar, moscas, estômagos, comida indo e vindo, leite, açougue, bife, professora, grama, chiclete, Estados Unidos. O cenário e as figuras podem ser visualizadas ou desenhadas, portanto o texto é figurativo.

Nota-se ainda sobre as palavras que há muitos substantivos de gênero único: um bicho, o leite, a grama, as patas, o açougue, o bife, a gente, os Estados Unidos, o jeitão, o chiclete; há palavras homônimas homófonas homógrafas ( aquela cara fingindo e já custa muito cara viva); há palavras que se destacam pela freqüência, vaca ( sete vezes), podendo ser considerada palavra-chave do texto e, ser (quatro vezes), leite (três vezes ), as quais podem ser consideradas palavras-tema. A palavra leite pode ser associada à economia ( a vaca dá o leite, mas na hora de tirar custa ) e à natureza ( o leite deveria ser verde). Os demais substantivos dessa crônica, verbos e adjetivos aparecem apenas uma ou duas vezes, servem apenas para caracterizar as palavras- tema e chave. Vale dizer, que a repetição é um elemento coesivo para dar ênfase, intensificar e uma maneira para deixar o texto fluir, mantendo o uma relação de contato com o leitor. A assonância do som da vogal a é notável em todo os textos, pois a maioria das palavras possuem um som a, aberto no seu interior.

Outra palavra que deve ser mencionada é gente. Neste texto, parece que esta palavra não tem o valor de coletivo, de nós, mas de unidade, do eu, pois a mãe do narrador repreende o seu ato, não estamos inseridos em seu contexto ( quando a gente faz a mamãe diz que porcaria!), é ele quem tem a impressão acerca dos sentimentos da vaca (Se a gente fica perto ela fica olhando com aquele olhar de que a gente fez alguma coisa com ela...)

É considerada uma crônica humorística, que possibilita além do riso, uma reflexão dos fatos corriqueiros. Um elemento da natureza tão simples, torna-se um objeto de importância social, um elo entre um pequeno brasileiro e os Estados Unidos, a comprovação da interferência cultural despercebida no nosso dia-a-dia (Estados Unidos > chiclete> vaca no Brasil), além de transmitir sentimentos e posturas, que certamente sensibilizam o leitor, o olhar magoado, o fingir que não está sentindo nada, a cara séria.

Há demarcação do tempo apenas em dois momentos do texto “ Já vi ordenhar vaca” e “as vacas vieram dos Estados Unidos”, o que serve para definir dois momentos de narração, o narrador viu a ordenha da vaca, e acredita que as vacas vieram dos Estados Unidos. Os verbos vi e vieram indicam um aspecto terminativo, conclusivo do processo. Nas demais frases, o verbo no presente descreve o processo contínuo dos fatos e uma dinâmica - tem, está fazendo, é intitulado, fica sempre, indo e vindo, dizem, ensina, só se alimenta, fica olhando, estão sempre. Neste caso, a ordem das frases não interferem na produção de significados. O escritor poderia começar com o período final, o que não afetaria a significação, mas apenas uma pressuposta intenção.

Nesse processo descritivo e narrativo, a personagem vaca se transforma ao longo do texto. É mencionada em um primeiro momento como um animal que tem o seu valor por fornecer carne, mas a seguir ganha traços humanos, pois faz de seu rabo um objeto para espantar as moscas, usa a inteligência e ao produzir o leite faz cara séria, pois o leite é muito importante do ponto de vista do narrador. Depois, a vaca é apresentada com um status social, casada, possui marido, intitulado boi. Há uma comparação entre a atitude da vaca e a do narrador, a vaca tem dois estômagos e fica com a comida indo e vindo, mas a mãe do narrador repreende-o se faz isso . Aqui, fica estabelecido que ela pode, ele não, porque há uma regra social que não aceita esse tipo de comportamento ( um pensamento cristalizado que faz sentir nojo perante o fato) . A vaca tem um valor viva, custa muito, todavia no açougue custa mais. Essa transformação de carne viva para bife parece provocar uma sensação de estranhamento no narrador, como algo vivo pode custar menos que algo morto? Parece ocorrer o mesmo, quando menciona que a professora ensina que a vaca dá leite, mas ao tirá-lo, ele percebe que custa. Ainda ocorre uma comparação por associação de comportamentos sociais entre as vacas e os americanos, pois têm a mesma maneira de mascar chiclete. O olhar da vaca se transforma, quando o narrador se aproxima, fica magoada. O narrador parece acreditar que ele é capaz de intimidá-la ao aproximar-se. Toda essa comparação que o narrador faz, esse olhar para si e olhar para o outro facilita a aprendizagem do narrador e a sua comunicação com o leitor.

No texto, a voz do narrador ora é em terceira pessoa, quando passa seus conhecimentos adquiridos por meio do discurso social, ora é em primeira, quando quer passar a sua impressão dos fatos adquiridos in loco, vivenciados em uma situação real. Em “já vi ordenhar vaca, é quando ela faz aquela cara fingindo que não está sentindo nada” , o narrador acredita saber sobre o comportamento da vaca no momento da ordenha. Quando o narrador quer opinar sobre a vaca, usa o discurso indireto-livre.

Com relação à linguagem, nota- se que há um contraste do urbano com o rural, vaca, grama, ordenha são palavras que servem para caracterizar o espaço rural, açougue, chiclete, professora são palavras que caracterizam o urbano, ocorrendo uma ampliação com as palavras Estados Unidos. De certa forma, parece ser estabelecida uma relação de hiperonímia , em que Estados Unidos são o hiperônimo, de onde as vacas vieram e vaca o hipônimo que mantém uma relação de dependência. Por sua vez, bife e leite são co-hipônimos e mantêm uma relação de dependência com vaca , açougue e custos. Percebe-se, então, que o narrador associa o ato de ruminar com o de mascar chicletes e que os Estados Unidos se impuseram culturalmente em relação ao uso de chicletes, certamente, por meio das imagens divulgadas em filmes nos cinemas e nas televisões. Outro fator interessante é que apesar da palavra chiclete ser da língua mexicana tizietti e vacca de origem latina (vacca) elas se cruzam no universo da linguagem.

A linguagem utilizada pelo narrador é culta, não apresenta erros de concordância nominal ou verbal. Em alguns momentos, utiliza-se de palavras de nível alto : intitulado e ordenhar. No segundo parágrafo, a falta de uma vírgula após a palavra vaca pode provocar ambigüidade no entendimento do texto e um certo humor, pois o leitor poderá entender como um xingamento à professora.

Verifica-se também que o narrador tem um grau de escolarização entre 3ª e 4ª séries, é uma criança com conhecimento limitado, pois se apropria do discurso adulto da mãe e da professora, manifestando a interferência cultural doméstica e escolar no seu discurso e ainda não entende o processo do metabolismo do corpo, não trabalha com a abstração, acredita que o leite deveria ser verde, porque a vaca ingeriu grama verde. Vygotsky, em Pensamento e Linguagem p. 111, comenta que para a criança a palavra é parte integrante do objeto que denota, “que é difícil para as crianças separar o nome de um objeto de seus atributos”. “De acordo com elas, um animal chama-se vaca porque tem chifres, bezerro porque os seus chifres ainda são pequenos, cão porque é pequeno e não tem chifres: um objeto chama-se carro porque não é um animal. Quando se pergunta a uma criança se seria possível trocar os nomes dos objetos- por exemplo, chamar uma vaca de tinta, e a tinta de vaca – elas respondem que não, porque a tinta é usada para escrever e a vaca dá o leite”. Com essa intertextualidade, parece ficar claro que a criança não distingue o nome do objeto.

Outra Intertextualidade, nota-se no desenho apresentado junto ao texto, quando é apresentada uma vaca atolada no brejo diante do monumento, que representa o homem em Brasília. Há uma conotação de cunho político e econômico nada favorável à situação em que se encontra a administração em Brasília. Apesar da vaquinha no desenho ser muito simpática, uma vaca no brejo significa transtornos, perigos, cansaço, malogro, falta de êxito, haja vista a expressão popular “a vaca vai pro brejo”.

Podem ser verificadas também as funções de linguagem no texto, estabelecidas por Roman Jakobson. Há a função denotativa ou referencial ( “A vaca é um bicho de quatro patas que dá carne de vaca”, “a professora ensina que ela dá leite” ), a função metalingüística , que é o próprio texto,pois explica o que é a vaca, a função emotiva, passando as emoções e sentimentos ( “a mamãe diz que porcaria!”, “aquela cara fingindo que não está sentindo nada”, “ela está muito magoada”); apelativa ( “que porcaria!”).

Enfim, são inúmeras as possibilidades de análises para a interpretação do texto, por exemplo, um economista poderia fazer um cálculo da diferença da vaca viva com a morta, um sociólogo poderia comentar sobre os interesses sociais que envolvem a política de preço da carne e do leite, um geógrafo poderia falar sobre a criação do gado bovino no Brasil, um antropólogo comentaria quando a carne bovina passou a ser consumida no Brasil... e Millôr soube muito bem jogar de maneira simples com os vários discursos sociais.

Referências Bibliográficas

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SÁ, Jorge de. A Crônica.Série Princípios. São Paulo, Ed. Ática, 2001.

VYGOTSKY, L.S. Pensamento e Linguagem. São Paulo, Martins Fontes, 1991.

www.uol.com.br/millor

Um comentário:

kaikille disse...

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